Escrevo para depois?
Os primeiros sinais no corpo útil. O corpo sempre doído, nunca confessado. Agora a dor o persegue. O primeiro peso do tempo. Depois do vazio o peso. O cansaço de quê, no corpo que não age? Corpo-sonho. Corpo-quase. Corpo nunca.
Fiquei impressionado com a cena de Ucrânia 3. Talvez expressionado, porque a cena me expressionou, me expressou. Clarice fala do riso de Padu. Era como se ela falasse para mim. Eu entrei em paranóia. Meu riso ora verdadeiro ora falso. Ora escudo ora espada. Ora tudo ora nada. Ora aço ora beijo. Choro grito desespero. Rosto umbigo espelho. Dizer algo por dizer, por vontade de ficar. Vaidade de não ser. Diga adeus e vá embora.
O medo de ser esquecido. Me deparo com a lembrança - eu em todas as bocas. Riso lembrado, requerido. Requerer o nosso requerido amigo.
Admiro Lucas pela piada e pela arte do palhaço, para a qual não nasci. Expor-se ao riso requer segurança. Me surpreendo com sua alma e revelo aos pouco a minha. São desvelamentos. Ele faz seu número e eu rio. Ele a piada, eu a gargalhada. E assim seguimos, amigo, nos defendendo e atacando. Piada espada, riso escudo e vice-versa. Ou nada disso. Ou tudo dessa.
Mudo.
"Já não há mais moinhos como os de antigamente" (João Bosco e Aldir Blanc)
Diz aquela canção da Elis. Mais vale o seu falso brilhante ou o diamente verdadeiro da Bethânia?
O que posso confessar sobre meu amor? Agora sinto que não lhe quero fazer mal.
Oh desprezível talento pra Cristo!
O corpo do homem que amo ... - palavra mais determinista, amor! - o corpo do homem que quero, de tão impossível, criou camadas. Em nosso abraço sinto medo de expressar tudo. E sinto mais medo ainda de expressar nada. De estar todo medo. Agora deve estar suando em sua crença, sua nudez, seu maxilar projetado. Mas também quero outros, ainda me resta saúde.
Ontem desejei desejei e entreguei minha boca a qualquer um. Apalpado na esquina lembro do outro que também tem - "que curioso e que coincidência" - o queixo projetado, sofrido. Mas é aí que mora a sensualidade, do mesmo modo como a alegria mora um pouco mais acima e a recusa mora nos braços cruzados. Tudo mora em algo no corpo, diz a ciência e eu fujo dela como...