domingo, 23 de setembro de 2012

06 de agosto de 2012. Shopping de Botafogo, praça de alimentação.

Escrevo para depois?
Os primeiros sinais no corpo útil. O corpo sempre doído, nunca confessado. Agora a dor o persegue. O primeiro peso do tempo. Depois do vazio o peso. O cansaço de quê, no corpo que não age? Corpo-sonho. Corpo-quase.  Corpo nunca.
Fiquei impressionado com a cena de Ucrânia 3. Talvez expressionado, porque a cena me expressionou, me expressou. Clarice fala do riso de Padu. Era como se ela falasse para mim. Eu entrei em paranóia. Meu riso ora verdadeiro ora falso. Ora escudo ora espada. Ora tudo ora nada. Ora aço ora beijo. Choro grito desespero. Rosto umbigo espelho. Dizer algo por dizer, por vontade de ficar. Vaidade de não ser. Diga adeus e vá embora. 
O medo de ser esquecido. Me deparo com a lembrança - eu em todas as bocas. Riso lembrado, requerido. Requerer o nosso requerido amigo. 
Admiro Lucas pela piada e pela arte do palhaço, para a qual não nasci. Expor-se ao riso requer segurança. Me surpreendo com sua alma e revelo aos pouco a minha. São desvelamentos. Ele faz seu número e eu rio. Ele a piada, eu a gargalhada. E assim seguimos, amigo, nos defendendo e atacando. Piada espada, riso escudo e vice-versa. Ou nada disso. Ou tudo dessa.
Mudo.
"Já não há mais moinhos como os de antigamente" (João Bosco e Aldir Blanc)
Diz aquela canção da Elis. Mais vale o seu falso brilhante ou o diamente verdadeiro da Bethânia?

O que posso confessar sobre meu amor? Agora sinto que não lhe quero fazer mal.
Oh desprezível talento pra Cristo!
O corpo do homem que amo ... - palavra mais determinista, amor! - o corpo do homem que quero, de tão impossível, criou camadas. Em nosso abraço sinto medo de expressar tudo. E sinto mais medo ainda de expressar nada. De estar todo medo. Agora deve estar suando em sua crença, sua nudez, seu maxilar projetado. Mas também quero outros, ainda me resta saúde.
Ontem desejei desejei e entreguei minha boca a qualquer um. Apalpado na esquina lembro do outro que também tem - "que curioso e que coincidência" - o queixo projetado, sofrido. Mas é aí que mora a sensualidade, do mesmo modo como a alegria mora um pouco mais acima e a recusa mora nos braços cruzados. Tudo mora em algo no corpo, diz a ciência e eu fujo dela como...

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

14 de julho. Casa da Dai e do Renato. Botafogo. Seis da tarde. Sala.

De repente a célula explode. Daí a pouco o elemento é engolido por outro, que o exige pela força de chamar, de atrair. Daí que o elemento se choca em outro, no meio da garganta. E aí vem o processo, o processamento. E me queimo no sol e queimo meus pulmões. E me lavo e me renovo. Meu corpo é constituído de bolas de sinuca.
Os corpos se esbarram e se destroem ao serem atraídos por outros. O corpo devastado resta no espaço e no caminho de outro. O corpo se destina ao fogo, ao pó, ao encontro, ao choque. 
A vida morre no corpo e ele dança sem sentido no espaço. A vida morre no corpo e ele dança sem ar.
Nem dentro nem fora. O corpo.
A barba macia e áspera. Nada se soma a nada, mas talvez haja um instante. Em que s pelos, duros, entram pelos poros do outro, ávidos. Antes do afastamento, da órbita das palavras, há (houve o momento em que os rios confluíram para os rios de outros planetas) o momento em que os corpos encontraram a coisa distraidamente. Não se pode dizer se relaxados ou acesos.


domingo, 16 de setembro de 2012

14 de julho. Casa da Dora. Botafogo. Meio-dia. Quarto dos fundos. "A coisa..."


A coisa toda é incompreensível. A coisa incompreensível. A coisa não se aprende nem se ensina. A coisa nunca nos é dada. Daí o risco. É preciso ter coragem. Sem coragem, sem coisa. Não. Sem coragem olha-se a coisa. Para lidar com a coisa, coragem. Daí o risco. Porque ter coragem é ter mais que ter a coisa. A coragem é outra coisa, com suas próprias arestas. A coragem não se soma à coisa. A coisa não se acopla. Nada se soma a nada. Apenas dá-se a mão à coisa e se vai. Ninguém se soma a ninguém. Nos damos as mãos e vamos.
Sonhei que precisava tomar o trem. Pulei algum muro, passei por algum buraco e cheguei à via férrea. Do que eu queria escapar? Ouvi com temor o barulho da máquina, vi sua luz que vinha. Me preparei com vergonha, das pedras, do ferro e das pessoas que estavam. O trem passou em outro trilho, não no que eu esperava. Fui em sua direção, mas esbarrei - percebi - não - segurei - vi - fui atraído por ela - a cerca de arame. Senti o choque e antes a tristeza da morte. Um medo farto. O abandono diante de si, diante do próprio medo. Morrer eletrocutado. No choque percebo tudo se queimando devagar, em microexplosões de células. A pele se enruga, resseca, torna-se cada vez mais velho. Os olhos saltam e vêem. E cada vez mais velho, mais carcaça e pó, esturricado na aceleração súbita da vida, o corpo velho diz: como me afastei da vida, e agora o tempo me cobra, a água invade o aterro. Com tristeza se observa o próprio medo, o próprio corpo ralentado de medo.
A vergonha da falsidade das palavras, da necessidade das palavras, do mau uso de palavras. Do mau uso do som. Do mau uso do gesto. Do mau uso do tempo. Do mau uso do corpo em relação a. Do mau uso do corpo colocado no espaço.

25 de junho. São Cristóvão. Madrugada. Quarto.

Me perco nos sentimentos dos outros, na ideia que faço dos sentimentos. Vejo olhares de compaixão.
[...]
Gostaria de destruir alguma coisa que não fosse eu mesmo. Mas só construí e agora tenho muros altos em volta.


27 de maio de 2012, à noite, minha casa.

Resta um certo humor. E essa frase me lembra alguém, parece Beckett. Resta algum humor.
A neve-fumaça do cigarro. O corpo me toca e penso em reagir depois. Ou não reagi ou reagi mas perdi tempo pensando depois que não reagi. Tempo do meu corpo mesmo.
"Fuco parado na porta" (meu companheiro Vassíliev na peça S.)
Certa vez ("certa vez", hahaha) eu pude ter puxado uma seta eu poderia ter puxado uma seta fiquei parado meu coração parecia um tambor, e me embalava e quem olhasse atento poderia ver meu corpo espasmando às batidas.
Ontem eu me sentei. E ouvi tudo que devia ouvir. Não disse nada do que eu devia dizer.
O medo me aprisiona. Desejo de defender alguma coisa, me defender. Meu riso pode mesmo ser uma defesa.
Eu deveria me expandir com tudo o que foi dito. Mas eu me expandiria demais? Que quero dizer como "demais"? Eu me encolhi disfarçado e abobalhado como se fosse mais digno que na arrogância. Mas eu estou entendendo.
- Acho que vou me matar.
- Sim sim.


27 de maio de 2012. Casa do Daniel Obino.

A pedra que eu cuspi pra quebrar sua vidraça.
"Corpos nus"...

domingo, 12 de agosto de 2012

16 de maio de 2012

A ideia de mutilação me atrai. Cortar os pulsos não é o mesmo que arrancar as mãos. Ou os dedos. Cortar fora o pau é uma grande negação. Quero ser um corpo decepado em cena. Levar à cena o meu horror, o corte. A presença da morte. Devolver minha ausência. - e "devolver" não é qualquer palavra - devolver denuncia minha arrogância - e ser uma luz que corta.
Não saber onde ir. Saber onde ir.
Cantar é a mutilação no corpo do ator. É uma devolução mutilada. Com o canto arranco os olhos e os ouvidos do outro e os recoloco. Ou não: simplesmente o corto. Encho seus olhos com paetês e seus ouvidos com vibrações e guitarras - que falam como um gesto, que falam como gritos e luzes e pratos quebrando.
Cuspir no prato que se come.
Recusar o prato.
Quebrar a louça.
"...a busca pela afirmação do gesto..." (Nina num texto pós-pré-ensaio de Estufa, orientando os atores. Foi bonito.) "...e não na busca pela afirmação do gesto..."
"...mantenha os dedinhos que pedem no nível do pedido real e não na busca pela afirmação do gesto..."
Meu corpo se mantém não no pedido real. mas na busca pela afirmação do gesto. Me coloco na busca artificial. Com alguns ensaios o teatro encontra o pedido real. Eu não encontro. Não tenho encontrado. Mas em ambos os casos não é mesmo uma questão de ensaio, mas de vontade/tempo/espaço/potência/memória. Memória.
Tenho muito forte a memória do natuaral cêncico. Tenho muito fraca a memória do natural do que penso que sou.
Não quero ter filhos.
Não terei filhos. Não posso passar adiante minha existência miserável. O que posso passar adiante, passo. A abstração, o pensamento. Mas não posso passar minha carcaça. Tenho que saber ser humilde e bom.
"Empunhar a espada e caminhar juntos."