domingo, 12 de agosto de 2012

16 de maio de 2012

A ideia de mutilação me atrai. Cortar os pulsos não é o mesmo que arrancar as mãos. Ou os dedos. Cortar fora o pau é uma grande negação. Quero ser um corpo decepado em cena. Levar à cena o meu horror, o corte. A presença da morte. Devolver minha ausência. - e "devolver" não é qualquer palavra - devolver denuncia minha arrogância - e ser uma luz que corta.
Não saber onde ir. Saber onde ir.
Cantar é a mutilação no corpo do ator. É uma devolução mutilada. Com o canto arranco os olhos e os ouvidos do outro e os recoloco. Ou não: simplesmente o corto. Encho seus olhos com paetês e seus ouvidos com vibrações e guitarras - que falam como um gesto, que falam como gritos e luzes e pratos quebrando.
Cuspir no prato que se come.
Recusar o prato.
Quebrar a louça.
"...a busca pela afirmação do gesto..." (Nina num texto pós-pré-ensaio de Estufa, orientando os atores. Foi bonito.) "...e não na busca pela afirmação do gesto..."
"...mantenha os dedinhos que pedem no nível do pedido real e não na busca pela afirmação do gesto..."
Meu corpo se mantém não no pedido real. mas na busca pela afirmação do gesto. Me coloco na busca artificial. Com alguns ensaios o teatro encontra o pedido real. Eu não encontro. Não tenho encontrado. Mas em ambos os casos não é mesmo uma questão de ensaio, mas de vontade/tempo/espaço/potência/memória. Memória.
Tenho muito forte a memória do natuaral cêncico. Tenho muito fraca a memória do natural do que penso que sou.
Não quero ter filhos.
Não terei filhos. Não posso passar adiante minha existência miserável. O que posso passar adiante, passo. A abstração, o pensamento. Mas não posso passar minha carcaça. Tenho que saber ser humilde e bom.
"Empunhar a espada e caminhar juntos."